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Mr. Blog sem nome

Fic (de momento): Don't miss you at all 2

Don't miss you at all 2 «41»

por Bê, em 06.09.16

Nunca fiquei tanto tempo sem postar no mr. blog.

Fui de férias para o Algarve e, como de costume, pensei em postar antes de ir nem que fosse para deixar o aviso. Mas há última da hora achei que não valia a pena. Quando regressei fui ver a data do último post e choquei-me ao perceber que se demorasse muito mais tempo a postar aqui ficaria quase a dois meses sem postar. Se calhar, isso é um presságio...

Para compensar, de certa forma, este é bem grande. Espero que gostem e...peço desculpa por ter demorado tanto...


 

Capítulo 41

 

Como pai preocupado que não conseguia deixar de ser, Bill colocou a mão sobre a testa de Joanne, testando a sua temperatura pela terceira vez nos últimos cinco minutos. Tinha o coração nas mãos desde que lhe tinham ligado da creche e avisado que a sua menina não se encontrava bem. Porque o seu horário era mais flexível do que Charlotte, o pai de Joanne deixara o estúdio, pouco tempo depois de lá ter entrado para trabalhar, e fora buscar a filha, encontrando-se a seu lado desde a hora de almoço. Jo passara a tarde com febre, dores de barriga e já vomitara duas vezes.

Não era fácil lidar com um filho doente, percebê-lo mal e ficar de coração apertado porque o via a sofrer, todavia, como pai que era, sabia lidar com situações do tipo e agir de acordo com o que sabia ser melhor para a sua menina. O sofrimento de Joanne? Infelizmente, pouco mais podia fazer além de tentar apaziguar a dor.

Mas nem tudo era mau. A última vez que medira a sua temperatura já fora capaz de sorrir. A febre começava a baixar e já se tinha passado quase uma hora desde que Joanne estava confortável o suficiente para deixar de resmungar em desconforto e até fazer uma sesta. Bill estava no seu quarto, deitado com Joanne na cama que partilhava com Charlotte, aconchegando-a contra o seu corpo. O pano húmido que colocara sobre a sua testa foi ajeitado por um pai preocupado que beijou o topo da cabeça da menina, sem deixar de lhe acariciar os cabelos. Quando Charlotte chegasse, ele iria...

- Ela está melhor?

A pergunta fez Bill desviar os olhos da filha e encarar a mulher da sua vida que, já aos pés da cama, se desembaraçava do cachecol e do casaco após deixar a mala em cima da cama. O loiro sorriu feliz por a ver e, também, porque o seu coração se encontrava mais leve. Charlotte aproximou-se dele sem deixar de olhar para Joanne, precisando de a avaliar por si mesma. Só depois o cumprimentou com um beijo breve nos lábios.

- Adormeceu?

- Há quase uma hora. - Respondeu Bill, baixinho, observando igualmente o seu rebento - A febre começou a baixar e não voltou a vomitar desde a última vez que te disse. Já está a ficar boa. - Concluiu o pai, sorrindo para a noiva. A mãe suspirou de alívio e viu-se igualmente capaz de sorrir para Bill, acariciando-lhe os cabelos.

- Passei o dia todo preocupada. Achas que foi alguma coisa que comeu?

- Ou um pequeno vírus.

- Ontem à noite estava tão bem...

- Sim, mas eu disse-te que estava murcha hoje de manhã. - Disse Bill - Foi ela que insistiu que tinha de ir para a creche... - Charlotte voltou a passar a mão pelo cabelo de Bill.

- O que importa é que já está a ficar melhor.

Bill beijou a mão que acabou por repousar no seu ombro, concordando com o ponto de vista da morena. Porque Charlotte já ali estava consigo, o rapaz levantou-se com cuidado para não acordar Joanne. Abraçou a sua companheira com ternura, saudando-a como desejava desde que a vira.

- Estava à espera que chegasses para tomar o meu lugar. - Bill apontou com o queixo para a cama e Charlotte não precisou que ele o dissesse duas vezes.

Tinha uma necessidade de cuidar de Joanne demasiado acentuada e todos conseguiam detectar isso. Talvez pelo tempo em que estivera em falta para com a filha nos seus primeiros anos de vida... Ainda tentava corrigir os seus erros para com uma das pessoas que mais amava no mundo.

- Ela não comeu nada durante a tarde. - Disse Bill enquanto Charlotte ocupava o seu lugar, ajeitando Joanne contra o seu corpo - Tentei dar-lhe um chá e torradas depois de ter parado de se queixar da barriga mas ela vomitou. Vou fazer alguma coisa para ela comer. Mesmo que não seja já, que seja quando se sentir capaz. - Junto às mulheres da sua vida, Bill debruçou-se e beijou os lábios de Charlotte, sorrindo contra a sua boca - Adoro ver-te com ela. É uma das coisas que mais gosto de ver, além de ti nua, claro. - O sorriso de Bill acentuou-se quando a ouviu rir baixinho. Voltou, inevitavelmente, a sorver os seus lábios - Quando tivermos a nossa menina, ver-te com as nossas filhas será absolutamente emocionante.

- Outra menina? Não gostavas de ter um rapaz? - Indagou Charlotte, deixando a sua cabeça divagar. Projectou a sua vida num futuro onde Joanne estava ao seu lado e Bill com um bebé nos braços, um rapaz igualzinho a si - Eu gostava de ter um filho que fosse igual a ti. - Olhou para a filha - A Jo é uma mistura dos dois. - Bill riu-se.

- Tanto faz: o que me satisfaz é que seja teu. Quero muito ter outro filho teu. - A sua declaração fê-la engolir em seco. Bill viu-se obrigado a manter o sorriso. Ele percebera o seu rubor. Ela era tão bonita, tão perfeita... Pensar que os seus filhos teriam aquelas características deixava-o mais feliz - Amo-te. - Um último beijo foi deixado sobre os lábios da morena antes de Bill desviar a sua atenção para a filha. Beijou-lhe a testa com carinho e, mesmo sem intenção, foi o suficiente para a menina acordar - Estás mais bem-disposta? - Joanne acenou com a cabeça e reconhecendo o cheiro próprio da mãe, aconchegou-se ainda mais em Charlotte.

- Tenho fome. - Afirmou Joanne. Era um bom sinal. A mãe beijou-lhe a testa e sorriu para o pai. Ambos visivelmente satisfeitos pelas suas palavras.

- A sério? Eu ia fazer alguma coisa para comeres. A mãe vai ficar aqui contigo, está bem? - Joanne voltou a acenar com a cabeça em resposta - Estava a pensar em canja. Pode ser? - Correspondendo ao sorriso que a filha mostrou, Bill sorriu também. A sua mão pelo rosto da pequena numa carícia que serviu para constatar, mais uma vez, a sua temperatura.

- Papá? A minha mochila. - Apontou a pequena. E Bill assentiu com a cabeça. Com a pressa de levar Joanne para casa, esquecera-se dos seus pertences na creche.

- Já tratei do assunto. - Depois de mais um beijo no rosto, o pai afastou-se - Não te preocupes e aproveita os mimos da mãe. Eu vou fazer a tua canja.

Bill já caminhava para a cozinha quando ouviu Joanne a perguntar a Charlotte se poderia ficar a dormir na cama deles naquela noite. A ternura da filha prolongou a estadia de um sorriso no seu rosto.

Do frigorífico e da despensa retirou os ingredientes necessários para preparar o prato. Ser pai melhorara os seus dotes culinários. Antes pouco mais sabia fazer além de ovos mexidos e de um molho para esparguete que resultara de uma experiência feliz. Joanne gostava particularmente de pratos com massa, mas não fazia birras quando calhava sopa ou peixe na ementa. Agora, Bill via-se tão à vontade na cozinha que se orgulhava por conseguir fazer um leque de possibilidades não só saborosos como do agrado da sua filha. Quem haveria de o imaginar com mão para a cozinha? Quem haveria de acreditar no seu à-vontade para fazer uma canja?

- Cheira bem. - Tom pronunciou-se ao entrar na cozinha. Aproximou-se do irmão gémeo enquanto este retirava do lume o tacho onde peitos de frango tinham estado a cozer - A Jo está melhor?

- Hmhm. Disse que tinha fome. É um bom sinal. - Disse Bill, olhando por cima do ombro para o irmão que permanecera atrás de si, encostado à ilha de mármore. Ele já tinha coado a água do frango, colocado a mesma ao lume de novo e as mãos já estavam ocupadas a desfiar o frango. Tom analisou o aspecto do irmão e sorriu com um regozijo mal disfarçado.

- Por muito que o tempo passe não sei se algum dia me irei habituar à tua imagem de avental. - Teria Bill ideia da sua figura? Como parecia ridículo com o seu ar de durão, proporcionado pelo estilo alternativo, emparelhado com a sua veia caseira? Como não rir perante aquilo? - Isto para não comentar o facto de estares a cozinhar, claro. - Bill riu-se. Pensando numa mesma coisa que Tom, que mais poderia ser feito?

- Como se tu também já não o fizesses. - Bill acertara em cheio. - Não é preciso, obrigado. - Disse Bill quando Tom ofereceu a sua ajuda. Acabara de juntar massa em forma de letras no caldo e a canja para Joanne não tardava a ficar pronta - Precisas de alguma coisa? - Tom ergueu os papéis que trazia nas mãos em resposta.

- Da tua assinatura. Mas pode esperar. - As folhas foram pousadas atrás de si e esquecidas temporariamente - A Charlotte já chegou? - Perguntou Tom ao cruzar os braços em frente ao peito - Como vai a luta para me dar mais um sobrinho?

- Divertida. - Respondeu Bill a rir-se. Usou o lava-loiça para lavar as mãos e acabou encostado à bancada, de frente para Tom, numa postura gémea.

- Imagino. - Comentou Tom com um sorriso malicioso, desviando o olhar para nenhum ponto em concreto. Estava a pensar em Hayden e em sexo. Juntar ambas as coisas em pensamento tornava fácil perder-se em si próprio. Com água na boca, o moreno humedeceu os lábios. Tinha saudades. Dela e de sexo.

- Estás com ar de quem tem fome mas não tem como jantar. - Bill estava com vontade de rir. Não era todos os dias que via Tom assim. E era fácil de adivinhar a quem se devia - Estás com falta de sexo? - Tom olhou de lado para Bill. Suspirou porque aquele tema de conversa o deixava inquieto e passou a mão pelo cabelo, puxando para trás as madeixas mais curtas que não ficavam presas no apanhado.

- Não gozes. - Era um aviso inútil porque, inevitavelmente, Bill iria acabar por se rir. De qualquer forma, isso não iria impedir Tom de se expor - A última vez que estive com alguém foi quando a Hayden veio ter comigo. Isto aconteceu há semanas. Ainda em Janeiro. Argh...! - Exclamou para exorcizar a sua agitação. Depois de Joanne o expor ao dizer que tinha andado aos beijos com Hayden, fora uma questão de tempo até inteirar Bill do que andava a acontecer na sua vida - Sabes o que tem piada? É que quando a voltei a ver deixei de estar dessa maneira com outras mulheres. Nessa altura, juro, não custou tanto.

- Eu acho normal. - Disse Bill, pensando no seu próprio passado - Quando voltei a ver a Charlotte só tinha mesmo intenções de lhe atirar à cara a porcaria que tinha feito. O que estragou tudo foi o facto de ela me ter beijado. Eu voltei a prová-la e ela derrubou a minha confiança, o que me fazia crer que estava melhor sem ela. - Suspirou - O que eu quero dizer é que antes não te poderia mesmo custar. Porque, aí, ainda não tinhas voltado a saber o que estás a perder.

- Sim... - Proferiu Tom, ponderando nas palavras de Bill, ainda que já tivesse admitido a si próprio que o gémeo tinha razão.

- Sentes a sua falta. - Constatou o mais novo, lendo o gémeo como quase ninguém conseguia. E Tom não o negou. Bill tinha razão, mas não iria ser elucidado sobre o tipo de saudades que o outro tinha.

Tom passara a falar com Hayden com regularidade, a incluí-la ainda mais na sua vida, partilhando o seu dia de trabalho, ansioso por saber do mesmo. Tinha saudades de estar com ela, de senti-la com as suas mãos, do seu cheiro, da paz que nutria quando estava na sua companhia. Carecia de tanto, em diferentes patamares, que não era de admirar que se sentisse incomodado. Assim, Tom permaneceu calado, apoquentando-se com as memórias que invocava constantemente de Hayden, e Bill, divertido com a singularidade do que via, decidiu manter-se de boca fechada, ocultando o que iria apaziguar o espírito do irmão. Quando a altura chegasse, o conforto seria ainda maior.

- Oh, merda... - Protestou Tom quando o seu telemóvel deu sinal de vida. Tirou-o do bolso das calças e barafustou pelo nome que aparecia no ecrã - Tinha-me esquecido que ela ia ligar. Ficámos de falar sobre o seu próximo projecto. - Bill ergueu o sobrolho enquanto observava o irmão com atenção. Agora que olhava bem, Tom parecia em baixo. Estava um pouco pálido e notava-se uma sombra por baixo dos seus olhos. Parecia precisar de um descanso que não dava a si próprio.

- Só agora me apercebi de que estás com mau aspecto. - Tom revirou os olhos e preparou-se mentalmente para atender a chamada - E se deixasses o trabalho para amanhã? - Tom ficou surpreendido, depreciando o que ouvira. Estaria Bill louco?

- Não tens piada, Bill. - O moreno pronunciou-se com azedume. A aprovação da chamada silenciou o toque e Tom encostou o aparelho ao ouvido - Não te esqueças de assinar os papéis. Sim? Nicky. Não estás a incomodar. Tens novidades para mim?

Tom deixou o irmão para voltar a refugiar-se no escritório. A sua capacidade para se dedicar ao serviço era fascinante. E a sua perícia para ignorar o resto do mundo quando estava concentrado nessas obrigações era igualmente impressionante. Bill também era perfeccionista e devoto ao que faziam, contudo, estabelecia limites. Afinal de contas, tinha família. E o trabalho não era tudo. Tom, por vezes, parecia esquecer-se disso. Era óbvio que precisava de uma distracção e quando Bill se voltou a aproximar do fogão sorria por saber exactamente que tipo de abstracção.

A influência que Hayden ainda tinha sobre Tom era incrível. Era bom ver que eles se estavam a ajustar. Bill sempre gostara dela, desde que Tom a apresentara a si, e pensar nisso fê-lo rir. Não se esquecera da indiferença de Tom, na altura, que camuflava um nervosismo e uma desilusão esperada que nunca chegou. Pensando nisso, Bill tinha de se perguntar sobre quem se sentira mais admirado: Tom por constatar que estava enganado ou ele próprio por conhecer alguém que parecia mostrar um carinho genuíno por si. Para uma criança que sofria constantemente abusos físicos e psicológicos aquilo fora importante. Por isso, independentemente dos problemas de Hayden, virar-lhe as costas era algo que Bill jamais conseguiria fazer.

A campainha soou estridente, afastando-o de memórias. Porque era o único por perto, Bill saiu da cozinha e foi abrir a porta, sorrindo ao encontrar a morena por quem o seu irmão se mantinha perdido.

- Hey. Entra. - Porque estava à vontade com ela para dispensar uma atitude formal, Bill regressou à cozinha. Deixou-lhe a tarefa de fechar a porta da rua e quando a rapariga alcançou o espaço em que ele estava, deu com o mesmo de volta do fogão, a acrescentar massa de letras no caldo que fervia - Tudo bem?

- Sim. Trouxe as coisas da Joanne. - Indicou Hayden, erguendo a mochila da pequena, antes de a pousar sobre a ilha de mármore, para elucidar a sua acção.

- Obrigado. Estava tão focado em trazê-la que não me lembrei das suas coisas. - Bill olhou por cima do ombro e sorriu agradecido pela sua disponibilidade. Quando dera pela falta dos pertences da filha fora para Hayden que ligara.

- Não há problema. Ela está melhor?

- A temperatura desceu e já começou a ter fome. - Disse Bill.

- Então é um bom sinal. - Disse Hayden, sorrindo - Desculpa só ter aparecido agora. Estive a fazer umas coisas e...

- Tu já me fizeste o favor de trazer as coisas da Jo. - Interrompeu o loiro ao volver-se de frente para Hayden - Achas mesmo que eu iria barafustar por teres vindo agora? - Bill riu-se para preencher o silêncio que ela ofereceu, divertido por aquilo que sabia e ainda não tivera a oportunidade de comentar com ela. Ainda - O Tom está em casa. - Foi o que estava implícito na afirmação que a fez corar. Conteve, no entanto, a vontade de esconder a face entre as mãos.

- É óbvio que tu já sabes de tudo... - Disse Hayden. O seu sorriso era tímido e Bill olhando bem para ela, vendo que tudo era tão óbvio, voltou a rir-se.

- Sim. Ele contou-me. Com pormenores. - Bill quis ser bem claro só pelo gozo de a ver envergonhada - Só para que saibas, estou feliz por estarem novamente juntos.

- Nós não estamos bem juntos.

- Podem chamar-lhe o que quiserem, mas vocês estão juntos. - Retorquiu Bill. O seu ar atrevido, sabido, só lhe incentivava o rubor - Antes de chegares estava a pensar no dia em que ele te apresentou a mim. - Porque a massa não demorava a cozer e a canja não tardava a ficar pronta, Bill voltou a dar costas a Hayden só pelo momento de juntar o frango desfiado ao caldo - Estava a pensar no que fora mais surpreendente: o facto de não teres enganado o meu irmão ou o facto de eu ter conhecido alguém que parecia gostar realmente de mim. - Sorriu - Sabes quando percebi que eras realmente minha amiga? Quando estavam a gozar comigo, quando me deixaram indefeso e iam colocar-me novamente no lixo, tu agiste. Aí já nos conhecíamos. - Relembrou Bill - Eu vi quando apareceste e nada me espantou mais do que ver-te a deixar cair a mochila e a atirares-te em minha defesa. Tu literalmente andaste à pancada para me defender.

- E voltaria a fazê-lo. Podes crer. - Disse Hayden, aproximando-se de Bill para lhe dar um abraço e beijar o seu rosto. O loiro suspirou nostálgico, sentindo uma grande empatia pela morena que tratou de abraçar em retorno.

- Estou contente por teres voltado a fazer parte da vida dele. - Confidenciou o rapaz, referindo-se novamente ao irmão - Não te censuro por te teres ido embora; eu consigo compreender. E sei que jamais farias algo de propósito para magoar o meu irmão. Nunca duvidei que tivesses ido embora para fazer alguma coisa por ti. Mas o meu ponto de vista não era o de um rapaz apaixonado. - Sorriu ligeiramente - Por me considerar teu amigo, quero ser sincero contigo: tu partiste-lhe o coração. Contudo... - Acrescentou Bill antes que Hayden se deixasse influenciar negativamente com a sua sinceridade - É também por ser teu amigo que tenho de te dizer que voltaste a juntar os pedaços. - Bill beijou a bochecha de Hayden e largou-a. Vagueou pela cozinha até alcançar a gaveta reservada a objectos perdidos e apanhou uma caneta para assinar os papéis que Tom deixara para ele - Espero que não tenhas de te ir já embora. Ele precisa de te ver. - Sem ficar quieto, Bill chegou a abrir um armário para pegar num prato de sopa. A canja para Joanne fora servida, a loiça colocada num tabuleiro e os papéis que Tom precisava foram entregues a Hayden.

- Hmm, não, eu até queria falar com ele... - As palavras de Bill e o seu tom de voz levaram-na a franzir a testa - Está tudo bem?

- Ele precisa de se distrair. - Disse Bill. Contando que Hayden o seguisse, o loiro abandonou a cozinha e a caminho do seu quarto, onde Joanne estava com Charlotte, fez a primeira paragem junto ao escritório - Às vezes parece que só vê o trabalho à frente. - Incentivando-a claramente a ir ter com Tom, Bill abriu a porta e gesticulou com a cabeça para dentro do espaço, sorrindo para Hayden.

- Ele parece estar ocupado. - Comentou a morena. Permanecia com Bill no corredor mas conseguia ouvir Tom que ainda falava ao telefone.

- Bem, nada melhor do que a pessoa de quem gostamos para nos abstrair das responsabilidades e nos ajudar a relaxar quando mais precisamos. - Ele chegou a piscar o olho à rapariga e logo depois de retomar o caminho para o seu quarto voltou a parar - Oh, só uma coisa. - Ele olhou por cima do ombro - A porta. Não te esqueças de fechar a porta. - Bill parecia tão divertido que ficou claro que estava a par da situação vivida pela noiva. As suas palavras envergonharam-na e Bill riu-se por isso - Entrega-lhe esses papéis por mim, se faz favor. E lembra-te de que estás à vontade.

Quando Bill retomou o seu caminho, Hayden tomou um novo fôlego. O seu coração batia com força quando espreitou para dentro do escritório e na altura em que entrou no mesmo e fechou a porta atrás de si toda ela já se encontrava sob influência da presença de Tom, quente e ansiosa pela sua atenção. Ele estava sentado à secretária, tão atento ao que via no computador que ainda não tinha dado pela sua presença. O seu cabelo estava apanhado e a sua barba estava maior; ainda não tinha sido aparada, desde a última vez que o vira pessoalmente.

Foi ao dar dois passos em direcção à mesa que Tom pareceu notar que não estava mais sozinho. De olhos postos no moreno, Hayden teve o prazer de ver o momento em que o olhar dele pousou em si, o momento em que ele percebeu que era ela, o momento em que ele mudou completamente a sua postura e de um foco no trabalho passou para uma impaciência para terminar a chamada. Hayden cumprimentou-o com um aceno e Tom, após afastar a cadeira da secretária, fez sinal com a mão para ela se aproximar.

- Eu continuo a achar que é uma boa ideia.

Tendo ela chegado à sua beira, Tom agarrou-a pelo braço e puxou-a para cima de si. Fê-la sentar-se ao seu colo; a mão que a agarrara não a deixara. A chamada telefónica prosseguia mas a atenção de Tom já tinha mudado de alvo. O sorriso dele estava dirigido a ela, parecendo realmente satisfeito por a ver, e isso deixou-a ainda mais à vontade, instigou-a a agir segundo o seu bel-prazer.

- Sempre falaste com o teu agente sobre o assunto? O que é que ele disse? - Hayden sussurrou um olá que o fez largar o seu braço e cercá-la pela cintura; o seu toque, tão possessivo, fê-la ofegar. Sentindo que poderia agir como desejasse sem que Tom colocasse um entrave nos seus actos, a morena juntou os lábios aos dele, sem chegar, realmente, a beijá-lo. Ficou apenas à sua mercê e Tom pareceu agradado - Concordo, acho que é o melhor a fazer. Além do mais, não deves descartar imediatamente qualquer coisa que faças e que não sai bem à primeira. Passa no estúdio na próxima semana. - O rapaz silenciou um suspiro quando apoiou a cabeça no encosto da cadeira e fechou os olhos. Hayden, em busca de uma melhor posição, mexera-se sobre ele. Repousou a cabeça no ombro dele; a sua respiração embatia contra o seu pescoço e, por uma vez ou outra, beijava a sua pele - Sim. A minha ideia é dar uma vista de olhos no que tu tens com mais atenção. O Bill vai estar comigo, nós vamos ajudar-te. - A eminência de terminar a chamada levou-o a sorrir - Certo. Fica combinado então. E não desanimes. Connosco o teu trabalho está em boas mãos e vai ser um sucesso. - Riu-se - Até lá, Nicky. - O tempo que ele não lhe dedicou por inteiro foi só o segundo de garantir que a chamada estava realmente desligada. Depois, ele foi todo seu - Olá... - Tom quis reclamar o que há muito necessitava, o que de tanto carecia e não fazia ideia quanto até a ver no escritório consigo. Avançou com a boca até à dela, mas Hayden recusou, impondo os papéis que tinha em mãos entre eles.

- O Bill pediu-me para te entregar isto. - As folhas foram-lhe arrancadas da mão e voaram para nenhures quando Tom as atirou. Os seus olhos estavam fixos nos seus, as mãos já moldavam o seu rosto para que a morena não pudesse fugir.

- Não quero saber dos papéis. Agora não. - Os dedos dele delinearam os contornos femininos; reconhecer os seus traços fê-lo sorrir. Perceber que era ela quem estava ali consigo só instigou a sua inquietação, estimulando o desejo que há muito vinha a ser contido - Tinha saudades tuas... - A afirmação levou-a a sorrir enamorada e a corar, desejando satisfazê-lo de todas as formas possíveis só para o agradar. Era a primeira vez que ele lhe dizia algo assim em muito tempo.

Tom avançou novamente para a sua boca; os seus lábios chegaram a tocar-se mas o beijo não se deu. Ele seduzia-a, fazia-a ansiar por algo que nunca mais chegava, e, atordoada, Hayden agarrou-se a Tom, como se isso a impedisse de se perder. A distância não era bem vista por nenhum dos dois, contudo, Tom queria-a num mesmo estado que o seu. Chegara, por fim, a um ponto em que só o contacto por telefone não era suficiente. A última vez que estivera pessoalmente com ela fora quando Charlotte os surpreendera no seu quarto por a porta não ter sido fechada. Quanto tempo se tinha passado depois disso? Quantos dias? Uma semana? Raios, ela tinha de sofrer. Tom não duvidava que ela também tivesse sentido a sua falta, mas de certeza que a saudade não tomara a mesma dimensão que a dele. Era ele quem ainda lidava com as novidades daquela reaproximação, não ao contrário. Estava decidido a provocá-la e foi preciso Hayden choramingar para ele seguir em frente. O beijo que reclamou lavou a sua alma. As suas preocupações foram varridas para longe à medida que se abraçava ao que só ela lhe podia oferecer. Tom acabou por largar o seu rosto e tacteou-a até alcançar a sua cintura. Estava carente a vários níveis e queria satisfazer todos os seus desejos com ela.

- O Bill incentivou-me a vir ter contigo. - Informou Hayden por entre o beijo; ofegante porque Tom a beijava com tamanha avidez que não escondia a veracidade das saudades confessadas por ele - Disse-me para te vir distrair. - Acrescentou ao afastar-se ligeiramente para o olhar nos olhos. Tom não parecia irritado por ela ter interrompido os seus afazeres. Atenta, pode ver como Tom parecia esgotado, claramente consumido pelo trabalho que não conseguia largar - Tu estás...

- Mais bonito? - Arriscou Tom ao interrompê-la, sorrindo divertido ao aproximar a sua boca da dela, tentando-a com uma nova oportunidade para um beijo.

- Não. - Disse Hayden, ignorando o grunhido de Tom que atirou a cabeça para trás e a encostou na cadeira - Estás com péssimo aspecto. - O rapaz revirou os olhos - O Bill disse que só vês o trabalho à frente. Pareces-me esgotado.

- Fala quem nunca pode estar comigo porque tem sempre de ir trabalhar. - Retorquiu Tom com aspereza. Depois, tendo assimilado o próprio tom, endireitou-se, fitando-a para ter a certeza de que não a retraíra - Não queria dizê-lo desta maneira.

- É a verdade. - Disse Hayden, apoiando os braços nos ombros de Tom, desvalorizando o assunto. Tocou-lhe sobre o cabelo e pouco depois deu pelos seus dedos a afagarem o rosto barbudo do moreno - Já me disseste que não tens tido vontade de cuidar de ti, mas faz um esforço em relação a isto. Devias ouvir o Bill: a vida não é só trabalho. - Tom sorriu minimamente ao ouvi-la. As suas mãos deslizaram pelas suas ancas, obrigando-a a moldar-se a si numa posição diferente. Ela estava tão junto a si... Conseguiria sentir o seu desejo?

- Eu podia usar essas palavras contra ti. - Comentou o moreno, observando o corpo que estava sobre si, ponto por ponto. Eles já tinham falado demasiado e Tom estava pronto a cometer loucuras – Mas chega de falar sobre o Bill. - Declarou num sussurro, contra os lábios dela. Os seus olhos continuavam abertos e aquilo que via era Hayden exactamente da forma que a queria para si - Chega de falar sobre trabalho, o meu aspecto, sobre o facto de nunca teres tempo para estar comigo. Eu não quero saber de nada. - Quando os seus dentes lhe mordiscaram o lábio inferior, as suas mãos agarraram-na com força, mantendo-a junto a si quando se levantou e a sentou sobre a mesa. Os seus pensamentos estavam direccionados para só uma coisa e queria torná-lo realidade - Quero fazer amor contigo agora, aqui mesmo, em cima desta mesa.

A crueza da sua verdade fez com que o estômago dela embrulhasse e a angústia foi transmitida por um gemido que ele aceitou com um sorriso, certo de que ela não se iria negar aos seus anseios. Ninguém os iria interromper, estando a porta fechada, mas Tom sabia que ela aceitaria qualquer tipo de aventura desde que ele o pedisse.

As suas mãos adiantaram-se para a roupa dela. A camisa de flanela que Hayden usava foi aberta com ansiedade e ela, ainda que não parasse de o beijar, ainda que não o travasse, ainda que o agarrasse, nada fazia para o ajudar; porque, de facto, os seus planos eram outros.

- Eu não...não posso... - A negação de Hayden fê-lo protestar e afastar-se com frustração, deixando-se cair sobre a cadeira de novo. A recusa acentuou um mau humor que a decepção instigava. Não a queria magoar com o seu desprazer, mas era inevitável questionar-se sobre quando iria ela parar de se afastar e arranjar espaço na sua agenda para si?

- Tens de ir trabalhar e passaste só para dizer olá. – Declarou Tom, roubando-lhe as palavras, crente de que era aquilo que iria ouvir. O seu tom de voz era nitidamente azedo - Como sempre.

Sem se retrair pelo tom que o moreno usava consigo, Hayden respirou fundo como se isso a ajudasse a acalmar o frenesim do seu coração - Nós nunca fizemos nada quando eu estava menstruada. - Disse Hayden, atraindo-lhe a atenção. As suas mãos estavam apoiadas sobre o tampo da secretária e a camisa que ele lhe abrira assim permanecia. A sua afirmação e o à-vontade colocaram a tela das suas emoções em branco - Sempre presumi que não gostavas.

- Na verdade, sempre fiquei afastado por não te querer importunar. - Disse Tom, debruçando-se ligeiramente para apoiar os braços nas pernas da morena - Ainda que, no meu ponto de vista, nunca tenhas pertencido àquele tipo de mulher que faz a vida de um homem num inferno quando está com TPM. - Sorriu ligeiramente - Desculpa. Pareço um viciado. - Ele riu-se e ela desvalorizou a situação com um encolher de ombros - Não penses que é só isso que quero de ti.

- Eu percebo. - Disse Hayden - Quer dizer, o Bill e a Charlotte estão a tentar ter mais um bebé. As coisas devem andar animadas por aqui. É bom para eles…e mau para ti. – Ela pensou nas noites divertidas do casal e imaginou a inquietação do gémeo mais velho que, claramente, não via os desejos da sua líbido atendidos há algum tempo. O seu tormento fê-la rir. Tom ergueu o sobrolho para Hayden, pondo em xeque a sua atitude ainda que não estivesse chateado.

- Estás a achar piada ao meu inferno? - Ela abanou a cabeça em negação, mas as suas gargalhadas não cessaram enquanto apoiava os braços sobre os ombros de Tom que perante a visão dos seios da morena, cobertos pelo soutien, mesmo em frente à sua cara, sorriu - Acho que me vou lixar para o facto de estares naquela altura do mês… - Comentou de olhos fixos no seu peito. As mãos, que não souberam ficar quietas, rumaram para a sua carne, ansiosas por a sentir - Não tens saudades?

- Tenho. - Respondeu Hayden, decidida a aproveitar a deixa, que não a deixava mentir, para contornar a questão do seu ponto de vista - Aliás, foi por isso mesmo que eu vim. - Ela suspirou apaixonada quando as suas palavras tiveram o efeito pretendido. Fizera com que Tom olhasse para si com afeição e o sorriso doce que lhe dirigiu fê-la derreter-se - Quer dizer, eu vim entregar as coisas da Joanne que o Bill esqueceu na creche. E também é verdade que passei pelo teu escritório depois de o teu irmão dizer. Mas eu tinha saudades…e não queria ir embora sem estar um pouco contigo. - Satisfeito, Tom usou as mãos para a acariciar e acabou por esticar a cabeça, de forma a oferecer-lhe a sua boca. E quem era ela para recusar uma coisa daquelas? - A ideia era mesmo ver-te porque queria falar contigo.

- Sim? - Tom suspirou com agrado. Podia não ter relações com ela, mas não havia nada como trocar beijos com ela - Sou todo ouvidos.

- Eu fiquei a pensar no que disseste na última vez que estivemos juntos. - Começou ela por dizer. Acariciava-lhe o cabelo com meiguice mas o seu tom de voz revelara-se um pouco mais sério; isso deixou-o mais atento ao que estava a ser dito - Sobre trabalho: sobre não ter tempo para estar contigo em condições. - Tom anuiu para que Hayden entendesse que estavam na mesma onda de pensamento - Eu queria dizer-te que estive a pensar e que sim: tinhas toda a razão. Eu trabalho demasiado. É verdade que o faço porque necessito, mas…preciso de estar igualmente contigo. Talvez até precise mais de estar contigo do que aquilo que obtenho de lucro com o meu trabalho. - Disse Hayden, sorrindo - O que te queria mesmo dizer é que estive à procura de trabalho e que consegui marcar uma entrevista para o início da próxima semana. - Antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, Tom protestou e descaiu a cabeça contra as pernas dela.

- Eu pensei que a conversa iria ter um rumo diferente.

- Tu não me deixaste dizer que este é um trabalho diferente. - Replicou Hayden - Este irá ocupar-me num horário laboral normal e o salário é melhor que as limpezas e o restaurante juntos. - Quando Tom se endireitou e voltou a olhá-la a rapariga sorriu - Fiquei tão animada por ter marcado uma entrevista para um emprego melhor que fui falar com os responsáveis do café e do restaurante e deixei de trabalhar nas limpezas. Antes, fui falar com a Merchê. Ela mora no meu prédio. É espanhola. - Informou - Vive sozinha com a filha e estava desempregada desde que a fábrica onde trabalhava faliu. Limpezas não é grande coisa mas sempre é algo que faz entrar dinheiro. Portanto, isto significa que, daqui para a frente, ela vai ocupar-se com as limpezas do café e do restaurante.

- E tu, além de não teres deixado os teus chefes na mão, ainda ajudaste uma pessoa, dando-lhe emprego. És admirável. - Concluiu Tom, sentindo-se orgulhoso da pessoa que ela era. O rancor bem que o cegara e o obrigara a denegrir a sua imagem, mas Hayden era uma pessoa com bom coração.

- Obrigada. - Proferiu Hayden. A mão que antes lhe acariciava o cabelo deslizou para o seu rosto - Isto significa que terei de esperar até segunda-feira para descobrir se cometi um erro e se passei a estar praticamente dependente do que a Charlotte e o Bill me dão por tomar conta da Joanne.

- Não. Significa que terás de esperar até segunda-feira para constatar que agiste bem. - Corrigiu Tom - Pensa positivo. - Ele acabou por sorrir ao pensar nos benefícios dos seus actos - Além do mais, tens de pensar na melhor parte: não precisares de te matar a trabalhar para ter rendimentos suficientes. - Hayden sorriu encantada, escorregando pelo tampo da mesa até regressar às pernas de Tom que a acolheu num abraço, levando-a consigo quando se recostou na cadeira de escritório.

- Na verdade, a melhor parte é que passarei a ter muito mais tempo para ti. - Tom riu-se baixinho e reclamou um beijo que se perdeu quando, para voltar a falar, virou o rosto. A satisfação obrigou-o a manter-se de olhos fechados; a mente era corrompida com imagens deles os dois juntos nos parâmetros íntimos que há muito desejava e que não pareciam longe de se tornar realidade.

- Isso significa que poderemos dormir juntos? - Ele gostou quando ela grunhiu em acordo, sem deixar de beijar a linha do seu maxilar, dirigindo-se para o pescoço. Fazia-o tão demoradamente que o acto se tornava bastante sensual - E que não terás de te preocupar com as horas quando estiveres numa cama comigo? - A nova confirmação dela levou-o a morder o lábio inferior - E de manhã? Ficarás na ronha comigo, sem teres de te preocupar com nada mais além de mim?

- Podes crer que sim. - Respondeu Hayden, sentindo-se ainda mais satisfeita com as suas decisões depois de ter falado com Tom. Percebê-lo feliz, deixava-a igualmente feliz e certa de que os seus pensamentos tinham sido organizados da forma correcta: o que tinha com ele era bem mais importante que dinheiro - Fico, as vezes que quiseres, até me mandares embora.

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